Autor: Edson Rechi – Setembro/2008 — Atualização Outubro/2010

Estuário é a parte terminal de um rio ou lagoa que se encontra em contato com o mar, sofrendo influência das marés e descargas de água doce de terra, possuindo água com mais sais dissolvidos que a água doce e em menor quantidade de sais que a água do mar. A água salobra é típica de estuários, mas pode ser encontrada em determinados aqüíferos que estão associados a rochas salinas. Ecologicamente é uma região semifechada do oceano influenciada pela mistura cinética da água doce e marinha, sofrendo influências determinadas pelas características das massas de água oceânicas e pela geomorfologia da costa. Sempre estão rodeados de terras úmidas, marismas ou terrenos alagadiços com pastos halotolerantes ou pântanos com árvores de raízes aéreas (mangais), rendendo a mais variadas formas.

Delta e estuário podem ser confundidos como ambientes diferentes, quando na realidade trata-se do mesmo ambiente. Para compreendermos um e outro, entendemos que foz ou desembocadura (desague), é a denominação do local onde há descargas de água doce corrente, como um rio, deságua. Um rio pode ter como foz um lago, lagoa, mar ou o oceano.

Basicamente, há dois tipos principais de foz de um rio, o estuário e a foz em delta. O primeiro é aquele em que o rio corre uniformemente em seu leito até o fim, enquanto o segundo é caracterizado pelo alargamento do leito, formando uma espécie de triângulo (daí o nome delta), tendo em seus lados as duas margens do rio e o limite com local onde ocorre a desembocadura. Freqüentemente forma-se porções de terra (ilhotas) no centro deste triângulo. Bons exemplos de fozes em delta são dos Rios Nilo, Amazonas, Níger, Pérolas e Danúbio.

O fluxo e o refluxo das marés provocam variações de salinidade da água, no pH, temperatura, velocidade das correntes e no teor de OD. Entre as principais varáveis ambientais do estuário, podemos citar:

- Salinidade: Feição dominante neste ambiente que pode variar conforme topografia, estação do ano e quantidade de água doce trazidos pelos rios ou água salgada pelas marés.

- Turbidez: A água do estuário possui enorme quantidade de partículas em suspensão, dificultando a penetração de luz, causando a diminuição da fotossíntese e sua respectiva produtividade. O certo é que o estuário é uma das poucas regiões marinhas que a fotossíntese não ocorre na água, exceto quando estão presentes árvores de mangues como no Estuário de Santos.

- Temperatura: Assim como a salinidade, costuma variar bastante em razão do menor volume de água existente e da entrada de água doce que tende ser sempre mais fria.

- Fluxo: Estuários costumam ser locais de águas lênticas, onde as correntes são causadas principalmente pelo fluxo de água do mar e dos rios.

- Substrato: Sendo um ambiente deposicional com seus sedimentos provenientes do mar e rios, o estuário possui substrato lamoso e macio.

- Oxigênio: O OD é muito mais alto na coluna d´água que próximo ao substrato, que possui pouco OD devido à oxidação bacteriana.

- Composição química: A composição química da coluna d´água, incluindo mudanças na quantidade e tipos de nutrientes dissolvidos, composição de sedimentos, podem variar.

- A salinidade da água é um dos fatores ambientais mais estudados, tanto na caracterização biótica como abiótica dos ambientes estuarinos.

Sistema Estuarino

Estuários apresentam características ambientais únicas que resultam em elevada produtividade biológica, desempenhando papéis ecológicos de suma importância como exportador de nutrientes e matéria orgânica para águas costeiras adjacentes, habitat vital para inúmeras espécies, zona de alimentação para numerosas espécies juvenis, pontos de passagem para espécies migratórias entre o meio marinho e fluvial, bem como gerar bens e serviços para povos locais. Na primavera, há uma explosão de produtividade e verão uma alta taxa de crescimento. Devido a dinâmica das águas associada à vegetação, que coloniza suas margens (mangues), há uma proporção de desenvolvimento exuberante da fauna, tanto terrestre como aquática, tendo nos passerídeos no topo da cadeia alimentar. As águas estuarinas são biologicamente mais produtivas do que as do rio e oceano adjacente, apresentando altas concentrações de nutrientes e estimulando a produção primária.

Apenas a título de curiosidade, aves possuem um grande poder de ingestão, onde através de pesquisas foram encontrados cerca de 40.000 crustáceos do gênero Corophium no estômago de uma Trinca, enquanto no estômago de um pequeno Calidrus, cerca de 730 moluscos do gênero Macoma. Sendo assim, passerídeos são excelentes bio-indicadores, indicando como está a saúde de determinado estuário.

Entre a fauna comercial primária, podemos citar as ostras, camarões, búzios, siris, caranguejos e tainhas, entre outros, que movem, esta que é considerada, uma verdadeira industria natural. Alagadiços costeiros e estuários, servem ainda para a desova de 2/3 da produção anual de peixes no mundo todo. Uma diversificada variedade de espécies de camarões e peixes capturados em alto mar, passa sua fase juvenil no estuário e outras cerca de 80 espécies comerciais dependem dele, dando a este ambiente o título de maternidade/berçário, já que muitas espécies aquáticas de vertebrados e invertebrados vivem na marisma, que fornece proteção para larvas e juvenis.

O sistema estuarino pode ser dividido em três zonas distintas, segundo Kjerfve (1989):

- Zona de Maré do rio (ZR): corresponde à parte fluvial com salinidade inferior a 1, mas ainda sujeita a influência da maré;

- Zona de Mistura (ZM): onde ocorre a mistura da água doce proveniente da drenagem continental com a água da região costeira adjacente;

- Zona Costeira (ZC): corresponde à região costeira adjacente.

Devido a capacidade natural de renovação periódica e sistemática de suas águas sob influências das marés, facilidades para instalações portuárias, comerciais e navais, comunicação natural com regiões de manguezais, abundante comunidade biológica, facilidade para captação de água doce e sua proximidade para as atividades econômicas e de lazer, estão entre as principais razões para o estabelecimento, desenvolvimento e instalação de importantes cidades brasileira nas margens do estuário. Isso faz com que os estuários sejam receptáculos naturais, não só da drenagem dos efluentes naturais da região adjacente, como também de substâncias patogênicas do centro urbano (COSTA, 1994; BÉRGAMO, 2000). Conseqüentemente, o uso excessivo desses ambientes, com finalidade de crescimento, tem ocasionado um desgaste dessas áreas, que antigamente representavam um dos últimos ambientes naturais ainda não explorados em nosso planeta. (PANNIER & PANNIER).

Portanto, o estudo e gerenciamento ambiental completo, das zonas costeiras de sedimentação atual é imprescindível, podendo brevemente se transformar num deserto biológico.

Ictioufauna Estuarina (ocorrência e distribuição)

A ictiofauna estuarina é caracterizada por densas populações de poucas espécies, tendo a maioria destas espécies origem marinha, característica apresentada a estas poucas espécies tolerarem o estresse da variação de salinidade inerente aos estuários, existindo uma grande biomassa de peixes associada a alta produtividade primária.

Conforme as variáveis e variações ambientais indicadas, diferentes ecossistemas são formados: gamboas, mangues, banco de marismas, praias, costões rochosos e planície de maré.

O topo da cadeia trófica dos estuários é encontrado uma variedade de espécies de peixes, sendo bioindicadores da salinidade deste ecossistema, ou seja, se existe alta riqueza de espécies da ictiofauna , entende-se que o ambiente não sofreu nenhum impacto, pois todos níveis tróficos estão representados no estuário.

Segundo Ribeiro, A.L.R. (2007), a ictiofauna brasileira está estimada em 530 espécies distribuídas em 28 ordens e 114 famílias, tendo as famílias que apresentam maior riqueza de espécies a Sciaenidae, Carangidae, Ariidae, Engraulidae e Serranidae.

Os peixes estuarinos e a relação do seu ciclo de vida com o ambiente são similares em todo mundo, permitindo a divisão em espécies dependentes do estuário e outras que dependem do sucesso reprodutivo em áreas marinhas e outras em água doce adjacente ao estuário. Deste modo, peixes estuarinos podem ser classificados como segundo Ribeiro, A.L.R. – 2007:

- Espécies residentes, que podem completar todo seu ciclo de vida no estuário. A maioria habitante de áreas rasas como as famílias: Atherinopsidae, Anablepidae, Clupeidae e algumas espécies de Gobiidae e Bleniidae.

- Espécies de comportamento catádromo e semicatádromo como as famílias Mugilidae, Paralichthyidae e Sciaenidae , espécies marinhas estuarino dependentes desovam no mar e utilizam, obrigatoriamente, a região estuarina como criadores de larvas e juvenis. Subadultos podem permanecer por longos períodos no estuário e adultos voltam para se alimentar.

- Espécies marinhas estuarino oportunistas desovam no mar e utilizam, facultativamente ou oportunisticamente, os estuários como criadouros de larvas, juvenis e subadultos. Estas espécies são encontradas nos estuários o ano todo, quando este se encontra em condições favoráveis, este grupo possui representantes nas famílias Sciaenidae, Engraulidae, Trichiuridae, Cynoglossidae, Batrachoididae, Phycidae, Triglidae, Stromateidae, Tetraodontidae e Carangidae.

- Espécies marinhas visitantes ocasionais é o grupo mais numeroso e aparece irregularmente nos estuários, não tem padrão definido. São encontrados exemplares das famílias tropicais Carangidae, Serranidae, Pomacentridae, Gerreidae, Balistidae, entre outras.

- Espécies anádromas vivem a maior parte de seu ciclo de vida no mar, mas entram na zona límnica ou pré-límnica e passam pelo estuário para a reprodução. Neste grupo são encontrados, por exemplo, representantes da família Ariidae, os juvenis desta família utilizam o estuário por diversos anos, como zona de criação e alimentação.

- Espécies de água doce são caracterizadas pela presença de um grande número de juvenis e subadultos de espécies típicas de água doce. São encontrados neste grupo, por exemplo, espécies da família Pimelodidae e Characidae.

Ecossistemas

Entre alguns ecossistemas presentes em regiões estuarinas, vale destacar:

- Mangue: Ambiente costeiro, de transição entre ambientes terrestre e marinho, encontrado apenas em regiões tropicais e subtropicais. Apesar de muitas vezes quando vamos a praia, nos deparamos com mangues ao longo da viagem, este acaba passando uma visão “pobre” e muitas vezes “negativa” para os menos informados. Saiba que o manguezal é um ecossistema complexo e muito produtivo. Ele está sujeito ao regime das marés, cercado de vegetais típicos (muitas vezes difíceis ou impossíveis de se criar em cativeiro) ao qual associado a outros componentes vegetais e animais, tornando-se um ambiente inigualável. Muitos animais migram para estas áreas por pelo menos uma fase do ciclo de sua vida e outros permanecem sua vida inteira nestes locais.

O manguezal suporta uma enorme variedade de animais tanto terrestres, como aquáticos. Macacos, serpentes e muitos pássaros são facilmente encontrados devido à infinidade de peixes, caracóis e pequenos crustáceos encontrados. Dependendo da região, encontramos peixes exóticos e até mesmo no lamaçal dos mangues como os exóticos Mudskippers. Em geral a salinidade dos mangues é baixa. Tanto estuário e mangue podem ser encontrados facilmente no litoral paulista, rios brasileiros, Guaíba (RS) e Ilha de Marajó no Brasil e entre os internacionais mais famosos na África, Delta do Nilo, rios Indo Malaios e Australianos.

- Costões rochosos: é um conjunto de rochas no litoral, quem desenvolve-se um ecossistema particular, que sofre influências do meio ambiente físico que determinam a zonação de cada costão. A maré é o fator abiótico mais importante na diversidade e abundância de organismos, assim como exposição solar, temperatura, vento e hidrodinamismo.

- Marisma: ecossistema úmido com plantas herbáceas (ervas) que crescem na água. Não confundir marisma com pântano, são ecossistemas diferentes. Enquanto o segundo está dominado por árvores, o primeiro está por herbáceas. Seu tipo água é determinado de acordo com sua localização, onde marismas costeiras podem estar associadas a estuários contendo água salobra e solos arenosos. Freqüentando por inúmeras espécies, desde algas planctônicas, até um grande variedade de flora e fauna , predominantes por passerídeos.

- Recifes de Ostras ²: As ostras se fixam umas às outras, construindo montes de conchas. Quando as ostras do fundo morrem, as larvas se fixam às conchas velhas, aumentando o tamanho do recife. Com a construção dos montículos, as ostras têm um melhor acesso às correntes que trazem comida e levam os resíduos. As indústrias que coletam ostras ajudam a manter o tamanho do recife colocando novamente as conchas vazias. Este é um exemplo de retroalimentação de um sistema natural realizado por uma parte da indústria pesqueira.

Os recifes de ostras de estuários comerciais têm uma alta produtividade. A diversidade e competitividade se mantêm baixas devido à constante flutuação da salinidade. Outro habitat comercial está na zona de entremarés, onde a exposição alternada ao ar mantém outras espécies à margem. Todavia, os recifes de ostras na zona de entremaré não podem alimentar-se através da filtração da água quando a maré está baixa, isto impede que estes tipos de recife cresçam tão rápido quanto os recifes de estuário em águas profundas.

Alguns recifes de ostras se contaminam com bactérias e vírus que foram filtrados da água contaminada do estuário. Estas ostras podem ser úteis porque abastecem ao estuário de larvas e se limparão novamente se as colocar em águas não contaminadas.

² Environmental Systems and Public Policy

- Planície de algas: estuários rasos, um ou dois metros de profundidade, são abastecidos por luz solar, sendo suficiente para produzir um denso leito de plantas de fundo, conhecido como planície de algas. Estas espécies variam de acordo com a salinidade da água, podendo ser encontrados em água doce, na zona superior, ou em zonas de baixa salinidade ou ainda espécies halo-tolerantes, que toleram zonas de alta salinidade.

Divisão compreendida da costa brasileira:

A costa brasileira, segundo características climáticas, oceanográficas e geomorfológicas são divididas em (fonte IBAMA 2007):

- Litoral Amazônico – Compreende da foz do Rio Oiapoque (AP) ao Rio Parnaíba (MA/PI), com alguns trechos extensos possuindo largura superior a 100 km. Caracterizado por ser lamacento, esse litoral apresenta área extensa de manguezais e matas de várzeas de marés;

- Litoral Nordestino – Inicia na foz do Rio Parnaíba (PI) e vai até o Recôncavo Baiano (BA), evidenciado por recifes calcários e arenitos, dunas móveis, manguezais, restingas e matas;

- Litoral Sudeste – Situado na área mais povoada e industrializada do país, seus limites são definidos pelo Recôncavo Baiano (BA) e o estado de São Paulo. Distinguido por falésias, recifes e arenitos, possui a costa recortada, com várias baías e pequenas enseadas;

- Litoral Sul – Abrange a área de banhados e manguezais do Paraná ao Arroio Chuí (RS).

……………………………………………………………………………………………………………………………

Bibliografia:

* Agradecimentos especiais a bióloga Rosana Ferreira pela amizade e hospedagem em Angra dos Reis (vide fotos deste artigo).

Ribeiro, Ana Luísa Reis (2007). Ocorrência e distribuição da ictiofauna estuarina brasileira. UNITAU – Universidade de Taubaté

Pritchard, D. W. (1967) What is an estuary: physical viewpoint. p. 3–5 in: G. H. Lauf (ed.) Estuaries, A.A.A.S. Publ. No. 83, Washington, D.C.

BARROS, H. M.; ESKINAZI-LEÇA, S. J.; MACEDO, S. J. & LIMA, T. Gerenciamento participativo de estuários e manguezais. Ed. Universitária da Universidade Federal de Pernambuco, Recife – PE, 252p. 2000.

BRASIL. Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil. Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – PNUD/ Fundação João Pinheiro – FJP/ Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA/ Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. 1 CD-ROM. 1998.

BRASIL. CONAMA. Resolução nº 303, de 20 de março de 2002. Estabelecimento de parâmetros, definições e limites diferentes às Áreas de Preservação Permanente. Diário Oficial da União, Brasília – DF, 13 maio 2002, nº 90, Seção 1. 2002a.

BRASIL. CONAMA. Resolução nº 312, de 10 de outubro de 2002. Procedimento de licenciamento ambiental dos empreendimentos de carcinicultura na zona costeira. Diário Oficial da União, Brasília – DF, 18 out. 2002, nº 203, Seção 1. 2002b.

CARVALHO, J. (coord.) Desenvolvimento em harmonia com o meio ambiente. Fundação Brasileira para a Conservação da Natureza – FBCN, Rio de Janeiro – RJ, 125p. 1992.

CALLENBACH, E.; CAPRA, F.; GOLDMAN, L.; LUTZ, R. & MARBURG, S. Gerenciamento ecológico: guia do Instituto Elmwood de auditoria ecológica e negócios sustentáveis. Ed. Cultrix, São Paulo – SP, 208p. 1993.

COELHO Jr, C. & NOVELLI, Y. S. Considerações teóricas e práticas sobre o impacto da carcinicultura nos ecossistemas costeiros brasileiros, com ênfase no ecossistema manguezal.

“Environmental Systems and Public Policy”

H. T. Odum, E.C. Odum, M.T. Brown, D. LaHart, C. Bersok, J. Sendzimir, Graeme B. Scott, David Scienceman y Nikki Meith (1987): Ecological Economics Program. University of Florida, Gainesville 32611, USA

Ecossistemas e Políticas Públicas Versão em português na Internet (1997):

Laboratório de Engenharia Ecológica – Unicamp, CP 6121 Campinas-SP, Brasil

Possui experiencia com o tema desta pagina ? Deixe seu comentario, podera ajudar outros aquaristas: