Autor: Edson Rechi – Abril/2010 – Publicado originalmente na Revista Portuguesa Bioaquaria

Introdução

O termo “peixe de água fria”, no contexto dos aquaristas, indica espécies de peixes que preferem águas mais frias. Temperatura próximo ou abaixo de 20º tipicamente é tolerado por estas espécies, algo impraticável entre a maioria dos peixes tropicais. O termo atribuído por aquaristas de certa forma é equivocado, uma vez que as espécies consideradas de água fria são chamadas assim por tolerarem uma amplitude térmica muito grande, contrário as espécies de água quente (tropicais), e não somente porque preferem águas mais geladas, como veremos ao longo do artigo.

Por tolerarem uma grande amplitude térmica e serem resistentes, são bastante apreciados por aquaristas iniciantes. Um grande chamativo na criação destes peixes em aquário refere-se a já comentada resistência a temperaturas baixas, podendo o aquarista economizar energia elétrica com o descarte de aquecedores, principalmente em épocas mais frias. Mas um aquário com peixes de água fria não se limita apenas a iniciantes ou pelo fato destas espécies serem tolerantes com diversos parâmetros, pois ele poderá trazer o prazer e recompensas como qualquer outro tipo de aquário que você está procurando.

Neste artigo será apresentado as espécies mais comuns encontradas nas lojas de aquarismo e algumas particularidades.

Temperatura

A temperatura influência diretamente na variedade e quantidade de peixes que você poderá manter no aquário, além de ser um fator decisivo na fisiologia dos peixes. Peixes de água fria não exigem dispositivos de aquecimento, mas poderá ser necessária a utilização de resfriadores de água (chiller) durante os meses mais quentes ou em regiões de temperaturas extremas. Este fator pode nos limitar na escolha das espécies a se manter em aquário quando se reside em áreas com temperatura bastante elevada.

Os peixes são classificados como animais poiquilotérmicos, popularmente conhecidos como animais de “sangue frio”, ou seja, a temperatura do organismo sempre está bem próxima a do meio ambiente, portanto, as reações bioquímicas do peixe estarão ligadas intimamente a temperatura do ambiente e consequentemente o estado comportamental de seu corpo reagirá de acordo com a temperatura no qual esta inserido. Calcula-se que a diferença entre e temperatura do meio ambiente e do metabolismo de um animal poiquilotérmico fique entre 1º e 2ºC.

O regime térmico também age diretamente no metabolismo dos peixes, quanto maior a temperatura, maior será o processo metabólico e menor a quantidade de oxigênio dissolvido (OD) na água. Por estes motivos, compreendemos que peixes de água fria possuem um crescimento mais lento e vivem por mais tempo que os peixes tropicais, além de exigirem quantidade maior de OD.

Todas as espécies de peixes sobrevivem em limites compreendidos de temperatura subletal máximo e mínimo. Estes dois limites representam seus limites de tolerância e dentro desta escala seu mecanismo fisiológico possuirá um ótimo funcionamento, promovendo o desempenho físico e biológico máximo, além da eficiência de seu metabolismo, permitindo sua reprodução e maior imunidade a agentes patogênicos.

Existem espécies que toleram mais ou menos os limites subletais de temperatura, podendo suas funções fisiológicas sofrer algum decremento quando inseridos em valores fora da escala ideal, mas conseguindo assegurar sua sobrevivência com alguma ou nenhuma dificuldade. Muitas espécies encontradas nas lojas se forem devidamente aclimatadas, possuem capacidade de se ajustar além dos respectivos limites, mas poderá haver restrições a adaptação variando a espécie ou mesmo o indivíduo de uma mesma espécie.

Reações fisiológicas, os processos metabólicos, o ritmo de crescimento, consumo de alimentos, respiração e capacidade homeostática, todas as reações bioquímicas é influenciado diretamente pela temperatura e qualquer alteração térmica haverá efeitos imediatos. Quanto mais próximos dos valores ideais, maior será a eficácia e velocidade do organismo e dos procedimentos de sua subsistência e poderão usufruir de melhores condições de vida.

Peixes ornamentais de água fria toleram uma amplitude térmica grande e são bastante adaptáveis a diversos valores de temperatura, principalmente no que se refere a peixes nascidos e criados em cativeiro, cuja adaptação a valores mais elevados são maiores que os peixes capturados. Peixes capturados que são encontrados em vastas distribuições geográficas, cuja resistência foi motivada por uma história evolutiva em meios ambientes extremos também toleram grandes variações, além das espécies residentes nas regiões subtropicais. Estas espécies são conhecidas como euritérmicas.

Manter peixes de água fria em temperatura tropical é aceitável e tolerável pela grande maioria das espécies, desde que não sejam submetidos constantemente a temperaturas tropicais. Para estas espécies é benéfico, principalmente espécimes capturados, que sejam mantidos em valores ligeiramente superior ou inferior a temperatura indicada ao longo da temporada, em função das estações, simulando seu ambiente natural. Mas deve-se estudar minuciosamente as condições naturais relativas a cada espécie, uma vez que a gestão de temperaturas incorretas pode danifica a saúde e bem estar do peixe e principalmente as oscilações térmicas devem ocorrer em semanas ou meses e nunca em questão de poucas horas ou dias. Espécies de água fria são beneficiadas com as oscilações térmicas em diversos aspectos.

Assim sendo, pode-se compreender um pouco o que a temperatura representa na biologia e desempenho físico dos peixes.

Outro aspecto importante refere-se a quantidade de OD que o peixe poderá tolerar em segurança variando a temperatura. Como já citado, quanto maior a temperatura, menor a quantidade de oxigênio presente na água. Peixes de água fria são pouco tolerantes a concentrações menores de OD, contrário as espécies tropicais. Se forem mantidos prolongadamente a níveis baixos não letais, pode-se gerar estresse crônico ocasionando sua redução na capacidade de converter a comida ingerida ou o peixe parar de se alimentar podendo falecer por inanição, além de ficarem mais expostos a doenças. De um modo geral, o OD deverá ser mantido próximo a 5ppm para peixes de água fria e 3,0ppm para peixes tropicais.

Espécies de peixes de água fria

Abaixo é apresentado algumas espécies tolerantes a grande amplitude térmica, embora várias espécies são consideradas tropicais e mantidas regularmente em temperatura tropical. Não entrarei em muitos detalhes acerca sua biologia e ecologia para não estender o artigo em demasia e porque muitas das espécies indicadas são mantidas regularmente no hobby, sendo possível se obter informações facilmente na internet ou com outros aquaristas.

Cypriniformes:

Kinguio (Carassius auratus): Um dos mais populares peixes ornamentais, possuindo inúmeras variedades criadas pelo homem. Variantes de corpo alongado tendem a passar de 40cm de tamanho, enquanto os de corpo ovóide raramente ultrapassam 20cm. Temperatura: 10º – 26ºC

Barbo Ouro/Verde (Puntius semifasciolatus): Um dos mais populares Barbos, chegam a 7cm. Temperatura: 18º – 26ºC

Barbo Ticto (Puntius ticto): Outra espécie popular entre os Barbos e um dos mais tolerantes a temperaturas frias. Temperatura: 14º – 24ºC

Barbo Rosado (Punctius conchonius): Chegam a cerca de 14cm. Temperatura: 18º – 26ºC

Tête de Boule (Pimephales promelas): Espécie comum na América do Norte e bastante rustico, chegam a 8cm. Introduzido na Ásia, onde vários países alertaram sobre possíveis impactos ecológicos negativos causados. Temperatura: 18º – 28ºC

Carpa Comum (Cyprinus carpio): Espécie bastante comum entre aquaristas, principalmente entre laguistas. É umas das espécies mais tolerantes a baixas temperaturas e podem passar facilmente de 50cm. Temperatura: 3º – 28ºC

Danio Pérola (Brachydanio albolineatus): Espécie bastante comum em aquários, fáceis de encontrar nas lojas e muito fácil de cuidar. Chegam a 7cm. Temperatura: 20º – 28ºC

Danio Zebra (Brachydanio rerio) – Ao lado dos Kinguios e Lebistes, é o mais popular peixe para quem está iniciando na aquariofilia. Existem algumas variedades disponíveis e sua manutenção é bastante fácil. Raramente ultrapassam 4cm. Temperatura: 18º – 28ºC

Dojo (Misgurnus anguillicaudatus): Espécies bastante popular e um dos peixes mais tolerantes a baixas temperaturas. Podem chegar próximo de 30cm. Temperatura: 10º – 26ºC

Sugador Chinês Gigante (Myxocyprinus asiaticus) – Não é tão comum em lojas de aquarismo, trata-se de um peixe raro e de formato um tanto peculiar. Para quem procura algo diferente, é altamente recomendado. Passam de 50cm. Temperatura: 15º – 28ºC

Tanictis (Tanichthys albonubes): Peixe extremamente fácil de se manter e bastante popular. Tolera temperaturas baixas, embora sua coloração diminui a medida que a temperatura for menor. Tamanho: 4cm Temperatura: 18º – 24ºC

Notrópis (Cyprinella lutrensis): Bastante popular no mercado de aquarismo norte americano e extremamente fácil de se manter. Tamanho: 9cm Temperatura: 15º – 25ºC

Vairon (Phoxinus phoxinus): Espécie estuarina que chega próximo a 15cm e exige temperatura fria constante, podendo não se adaptar a temperatura tropical. Temperatura: 2º – 20ºC

Botia Sucker (Pseudogastromyzon myersi): Comumente vendido como Cascudo de água doce, embora sua morfologia seja um tanto distinta dos verdadeiros Cascudos. Bastante pacífico e excelente comedor de algas. Tamanho: 6cm Temperatura: 18º – 22ºC

Rainbow Shiner (Notropis chrosomus): Espécie rara nas lojas de aquarismo, possui coloração impressionante e ideal para aquário comunitário. Temperatura: 18º – 24ºC

Characiformes:

Tetra de Nadadeiras Vermelhas (Aphyocharax anisitsi): São comuns nas lojas e bastante resistentes. São peixes bastante ativos e devem ser mantidos em numeroso cardume. Tamanho: 6cm Temperatura: 18º – 28ºC

Tetra Buenos Aires (Hemigrammus caudovittatus): Bastante popular e pouco exigentes. São ideais para aquário comunitário. Existem diversas variedades desta espécie como a albina e outras. Tamanho: 6cm Temperatura: 18º – 28ºC

Tetra Azul (Coelurichthys microlepis) : São raros nas lojas, mas é bastante atraente e ideal para aquário comunitário ou plantados. Tamanho: 6cm Temperatura: 18º – 24ºC

Cyprinodontiformes:

Guppy (Poecilia reticulata): Um dos mais populares peixes do mundo, sendo introduzidos em diversos países devido sua adaptabilidade. Há diversas variedades disponíveis no mercado, mas os exemplares selvagens são os mais tolerantes a temperaturas baixas. Tamanho: 4cm Temperatura: 16º – 28ºC

Peixe Mosquito (Gambusia affinis): Conhecido como peixe mosquito devido sua voracidade frente a estes insetos, são peixes bastante rusticos. Tamanho: 4cm Temperatura: 12º – 28ºC

Jordanella (Jordanella floridae): Considerado um Killifish, é um excelente peixe algueiro e pacífico. Tamanho: 6cm Temperatura: 18º – 26ºC

Plati (Xiphophorus variatus): Outra espécie bastante popular entre aquaristas devido sua rusticidade. Existem inúmeras variedades criadas pelo homem. Tamanho: 7cm Temperatura: 15º – 26ºC

Perciformes:

Ciclídeo Jóia (Hemichromis bimaculatus): Embora não possa ser considerado um peixe de água fria, é um dos poucos ciclídeos a tolerar temperatura baixa. Tamanho: 14cm Temperatura: 20º – 28ºC

Peixe Paraíso: (Macropodus opercularis): Outra espécie tropical que tolera temperatura baixa, embora não possa ser considerado peixe de água fria. Tamanho: 7cm Temperatura: 16º – 28ºC

Peixe Sol Bandado (Enneacanthus obesus): Espécie originária e bastante popular na América do Norte. Tamanho: 10cm Temperatura: 10º – 22ºC

Ciclídeo Texas (Herichthys cyanoguttatus): Ciclídeo da América do Norte, bastante comum entre aquaristas latino americanos. Se adapta facilmente a temperatura baixa. Tamanho: 30cm Temperatura: 20º – 30ºC

Perca Sol (Lepomis gibbosus): Bastante comum em diversas regiões de Portugal, possui comportamento bastante territorial e sua manutenção é relativamente fácil devido sua rusticidade. Tamanho: 40cm Temperatura: 4º – 25ºC

Rainbow Darter (Etheostoma caeruleum): Pequena espécie encontrada na América do Norte em pequenos córregos e rios de médio porte. Possui coloração impressionante e ideal para aquário comunitário. Tamanho: 4cm Temperatura: 4º – 20ºC

Outras ordens:

Esganata Gata (Gasterosteus aculeatus): Peixe nativo de boa parte do norte da Europa. Frequenta diversos ambientes de água doce, estuarino e marinho. Tamanho: 11cm Temperatura: 4º – 20ºC

Bullhead (Cottus gobio): Se procura uma espécie diferente em sua morfologia, esta é sua opção. Bastante comum na Europa e encontrado sempre próximo a regiões estuarinas. É recomendado criá-lo em aquário mono-espécie devido sua voracidade alimentar. Tamanho: 18cm Temperatura: 0º – 20ºC

Corydora Bandada (Scleromystax barbatus): Apesar de não pertencer ao gênero das Corydoras, é conhecido devido sua morfologia e comportamento similar as Corydoras. É umas das poucas espécies de Siluriformes que toleram temperatura amena. Tamanho: 10cm Temperatura: 20º – 28ºC

Medaka (Oryzias latipes): Killifish japonês que possui coloração bastante variável. É bastante utilizado em experiência devido sua rusticidade e pequeno tamanho, além de tolerar baixas temperaturas. Tamanho: 3cm Temperatura: 16º – 24ºC

Gar Manchado (Lepisosteus oculatus): Para os aquaristas amantes de peixes jumbos/carnívoros, esta espécie primitiva é uma boa alternativa para se manter em temperaturas amenas. Tamanho: 150cm Temperatura: 12º – 24ºC

Gar Longnose (Lepisosteus osseus): Outra espécie de grande porte carnívoro, porém seu tamanho é menor comparado a seu primo acima, mas igualmente tolerante a temperatura fria. Tamanho: 70cm Temperatura: 12º – 24ºC

Existem outras inúmeras espécies de peixes de água fria ou peixes de regiões subtropicais que toleram uma amplitude térmica grande. Acima há bastantes opções para começar seu aquário com peixes de água fria, recordando que nem todas podem ser compatíveis entre si, portanto, pesquise e certifique-se em fontes confiáveis as devidas compatibilidades entre as espécies antes de povoar seu aquário.

Referências:

CRESCIMENTO DE CARASSIUS AURATUS (ACTINOPTERYGII: CYPRINIFORMES) EM TANQUES COM E SEM ABRIGO - Alex Sandro Trombini e Silva Uwe Horst Schulz
Laboratório de Ecologia de Peixes, Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS

Riehl, R. and H.A. Baensch 1991 Aquarien Atlas. Band. 1. Melle: Mergus, Verlag für Natur- und Heimtierkunde, Germany.

Beitinger, T.L. and W.A. Bennett 2000 Quantification of the role of acclimation temperature in temperature tolerance of fishes. Environ. Biol. Fish.

Eaton, J.G., J.H. McCormick, B.E. Goodno, D.G. O’Brien, H.G. Stefany, M. Hondzo and R.M. Scheller 1995 A field information-based system for estimating fish temperature tolerances.

Miguel Aires Tinoco Andrade – http://www.viviparos.com

US Forest Service (Fish Resources) - http://www.fs.fed.us

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