Autor: Alexandre Avari

Muitos aquaristas têm problemas em manter cascudos saudáveis em seus aquários por muito tempo. Eles misteriosamente morrem aparentemente sem nenhuma causa em pouco tempo. Por se tratar de uma espécie de grande oferta e baixo custo (pelo menos as espécies mais comuns), as pessoas os repõem, afinal “é bom ter um cascudo no aquário para ajudar na faxina”..

Anos atrás tive uma fase “negra” com cascudos, que se estendeu por anos e anos… Eles acabavam morrendo em semanas ou poucos meses. Fiquei muito tempo sem nenhum tipo de loricarídeo por conta disso! Um dia cismei e resolvi pesquisar, antes de arriscar novamente. A análise das características ecológicas e metabólicas me levou a conclusões bastante interessantes, tanto que hoje me dou ao luxo de ter vários cascudos em meu aquário. Sabem como é… Para matar a vontade de tantos anos!

Cascudos são peixes sensíveis (acreditem!!) e que sofrem absurdamente na captura, justamente pela crença de que são peixes super resistentes. Geralmente chegam a um estado de desnutrição tal que raramente se recuperam, mesmo que voltem a comer.

O inchaço na barriga muito comum em certos cascudos expostos em lojas seria devido ao “entupimento” das vias gastro-intestinais, pois as “paredes” desses órgãos se “colam” com a desnutrição (meio que tentam digerir a si próprios) e podem “entupir” com nacos grandes e mal digeridos de comida, ou até com algum pedrisco que tenham engolido por engano. A barriga incha devido ao acumulo de alimentos e a fermentação, que contamina todo o organismo deles!

Inclusive, aproveitando, grudam em peixes maiores quando estão desesperados de fome ou quando cismam. Os meus nunca grudaram nos meus discos!

Uma dica é alimentar os cascudos assim que chegam com grandes quantidades de fibra, dando-lhes vegetais para comer, como rodelas de abobrinha, pepino, mandioquinha, dentre outros legumes. Batata é particularmente apreciada!

As fibras fazem com que o organismo do cascudo “trabalhe” conforme fora “projetado pela natureza” (cascudos e afins são basicamente vegetarianos) e auxilia muito nesses casos de desnutrição avançada que, aliás, é quase imperceptível na hora da compra!

Cascudos vivem em ambientes bem estáveis, e muito aerados, com pouca vegetação e pouca matéria animal disponível (geralmente vivem em corredeiras), por isso, alimentam-se basicamente de limo e algas, oportunamente algumas carcaças que fique presa entre as rochas de seu ambiente ou pequenos vermes e crustáceos. Esses vegetais são pouco nutritivos, por isso passam dia e noite comendo, quase que ininterruptamente, para suprir suas necessidades.

O que acontece é que, quando são coletados, ficam muito tempo sem comer e seus organismos não tem resistência para suportar longos períodos de jejum, nesse ponto, não muito mais frágeis que, por exemplo, um acará disco!

Consomem suas poucas reservas de gordura, são peixes ATLÉTICOS, em seguida, seus músculos poderosos e, por fim, seus órgãos internos. E nesse estado chegam às lojas, semanas depois da coleta, muito debilitados! Por isso a maioria não sobrevive às primeiras semanas.

Ser “atlético” é uma coisa, estar magro é outra. Explico: Digo “atlético” por serem peixes que tem músculos muito fortes e pouquíssima gordura. Entenda gordura como reservas. Por exemplo, um Dourado (Salminus brasiliensis) é um peixe, como todo mundo comenta, muito forte. Entretanto é um peixe “gordo”, possui muitas reservas armazenadas, pois a fartura de sua alimentação varia conforme o dia, a época do ano, condições climáticas, a sorte etc, além, claro, de terem organismos “programados” para períodos de jejum, como na piracema, quando se alimentam muito pouco, durante a subida à foz dos rios.

Cascudos, ao contrário, comem constantemente em seu habitat, sejam restos de plantas e animais, sejam pequenos invertebrados, sejam algas, musgos e limo, têm alimento sempre disponível; não conhecem e não possuem mecanismos metabólicos para passar por períodos de jejum, mesmo que sejam períodos curtos, mesmo tratando-se de espécies que não se movimentam muito, característica comum entre os siluriformes. Os outros peixes gato são, em boa parte, caçadores de tocaia, não ficam caçando, no máximo dão um bote ou uma pequena corrida atrás de suas vítimas. São oportunistas e com isso economizam energia.

Não precisam reter grandes reservas já que não se desgastam muito, mas quando fazem esforços, geralmente utilizam uma grande quantidade de energia num curto espaço de tempo (o tal do bote, da pequena perseguição ou mesmo de uma rápida fuga), por isso precisam ser fortes, mesmo sendo a taxa de gorduras em seus organismos muito baixa.

A desnutrição não é necessariamente percebida apenas observando o peixe, a gordura dos peixes é bem diferente da nossa, é oleosa e permeia seus músculos. Um acará bandeira saudável é visivelmente diferente de um raquítico, mas não tem uma área de gordura localizada, é todo mais “gordinho”, um cascudo não muito magro numa loja pode estar bastante fraco.

Já reparou que peixe raquítico tem até as nadadeiras murchas, fechadas e estranhas? As nadadeiras também estão “magras”. A desnutrição dos peixes ocorre de forma muito mais homogênea que nos mamíferos. Esse óleo é facilmente distribuído por toda a extensão do organismo do peixe, até nas membranas das nadadeiras.

Quanto ao tamanho do aquário, existem cascudos para todos os gostos, desde espécies que chegam por volta de 3 cm (por exemplo: Otocinclus), 10 cm a 15 cm (boa parte das espécies mais comuns), as que chegam a 20 cm , 30 cm (por exemplo: Panaque e muitos Ancistrus) até as que beiram um metro (por exemplo:Pterygoplichthys e Hypostomus).

Dependendo da espécie, podem viver em 50 litros sem problemas, desde que tenham alimento disponível. Lembre-se que não são peixes muito ativos.

Não deixe seus cascudos com a incumbência de viver de algas e restos de ração! Alimente-os com vegetais! Funcionou pra mim que é uma beleza e hoje tenho os cascudos mais lindos que já tive.

Cascudos ou qualquer “peixe gato” cujo corpo é revestido de placas ósseas possuem muito pouco, se não nenhum (que é o caso) muco protetor. Isso se explica pelo fato de viverem em corredeiras que lhes arrancaria o muco. Essas placas, no entanto, permitem que seu organismo absorva como uma “esponja” excessos de sais na água, “desidratando” o peixe, causando-lhe um desbalanceio osmótico (referente aos fluidos do corpo) tal que o peixe morre rapidamente.

NUNCA adicione nem um pouquinho de sal sequer em um aquário que tenha cascudos, coridoras, diademas, tamboatás, acaris e outros! Existem teorias e falam de espécies que suportam certa concentração de sal… Mas para que arriscar?

Na compra, prefira os de barriga achatada (não afundada, nem inchada) e, se possível, que já estejam ha algum tempo exposto na loja. Reserve-o por uma semana e só então o leve para casa se desconfiar de seu comportamento

Mais: existem cascudos e cascudos! Evolutivamente, peixes-gatos (Siluriformes) estão no mesmo patamar que, por exemplo, os Ciclídeos (Perciformes). São espécies mais “modernas”, por isso, podemos supor que tem uma “inteligência” bastante semelhante. Se houver essa “inteligência”, tem também “personalidade”. Alguns cascudos são pacíficos, outros mais agressivos, alguns atacam o muco de peixes maiores, como kinguios e acarás-disco, eles experimentam o muco de desses peixes grandes, geralmente quando estão famintos, e descobrem que isso pode suprir suas necessidades alimentares, mesmo que parcialmente. Apesar do risco que isso representa a ambos, peixe atacado e cascudo, em alguns casos é necessário, por fome ou por puro vício.

Nunca tive tanto sucesso com cascudos quanto agora que os alimento.Há quem tenha cascudos sem alimentá-los diretamente, deixando-os viverem de algas e restos, e eles vivem e bem, mas nem se compara com um cascudo bem alimentado. Fica MUITO mais bonito e ativo!

É um peixe que nos dá uma bela força no controle de algas, carismático, simpático e, por que não dizer, de “rara” beleza!!

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